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  • Sárila Aline Ferronatto

Positividade tóxica

A obrigatoriedade de estar feliz a todo momento



Este é um assunto bastante delicado, mas muito interessante, pois assim como estamos rodeados de fake news neste momento e de um exagero de notícias negativas, também podemos observar o comportamento de algumas pessoas exagerando na positividade, como se estivessem vivendo em uma bolha.


A positividade tóxica é definida como a generalização excessiva e ineficaz de um estado feliz e otimista em todas as situações. O processo de positividade tóxica resulta na negação, minimização e invalidação da autêntica experiência emocional humana.


Assim como qualquer coisa em excesso, quando a positividade é usada para encobrir ou silenciar a experiência humana, ela se torna tóxica. Ao proibir a vivência de certos sentimentos, a pessoa cai em um estado de negação e emoções reprimidas. A verdade é que acima de tudo somos humanos. Sentimos ciúmes, raiva, ressentimento, medo, e isso é normal. Especialmente neste momento em que estamos enfrentando uma pandemia, fingir que as pessoas não estão morrendo ou ficando desempregadas e sair tentando convencer a todos que essa situação não está lhe afetando nem um pouquinho é tóxico. Ao fingir uma positividade o tempo todo, nega-se a validade de uma experiência humana genuína.


Quando escondemos uma parte de nós mesmos, criamos um personagem. Às vezes, esse personagem pode parecer alegre, com um sorriso animado, afirmando: "Tudo acontece por uma razão!" Mas quando nos escondemos assim, negamos a nossa verdade. E a verdade é que a vida pode machucar às vezes. Se você está com raiva e este sentimento de raiva não é reconhecido, ele fica enterrado no fundo do nosso corpo. As emoções reprimidas podem se manifestar mais tarde em ansiedade, depressão e em uma infinidade de doenças físicas.


É importante reconhecer a realidade de nossas emoções, é isso que nos mantém saudáveis. Uma vez que honramos nossos sentimentos, TODOS eles, os bons, os maus e os feios, aceitamos a nós mesmos como somos. Este é o caminho para uma vida emocional equilibrada.


E ainda há outra questão: o relacionamento consigo mesmo geralmente se reflete no relacionamento que você tem com os outros. Se você não consegue ser honesto sobre seus próprios sentimentos, como poderá manter espaço para alguém expressar sentimentos reais em sua presença? Ao alimentar um mundo emocional falso, atraímos mais falsidade, resultando em intimidade falsificada e amizades superficiais.


Especialmente agora, é óbvio que queremos e devemos nos manter positivos. Porém a positividade também precisa de consciência, pois uma coisa é estar em um estado de otimismo, acreditar que as coisas vão dar certo, acreditar que tudo vai passar, ter fé e ter esperança. Isso tudo é a real positividade. Outra coisa é você negar sentimentos acreditando que a positividade deve ser um estado obrigatório.


Pare por um momento! Esteja ciente de suas próprias emoções! É normal se sentir um pouco perdido, com medo do que vai acontecer e até mesmo enfurecido com a situação que estamos atravessando, mas fingir uma alegria exagerada não irá melhorar as coisas. Manter-se positivo neste momento é confiar. Confiar que mesmo se você sentir medo, as coisas darão certo, apesar do medo. É enfurecer-se sim, mas então sair para dar uma corrida e liberar a energia de fúria através de uma atividade física vigorosa. É entender que muitas vezes, quando nos sentimos perdidos é que podemos parar e analisar quais as possibilidades temos a nossa frente, sair da situação e olhar a vida de uma nova perspectiva, pois normalmente não fazemos isso quando tudo está indo bem, então este período pode ser extremamente benéfico, mas apesar do que você está sentindo e não porque você reprimiu tudo o que sentia para se sentir positivo.


A positividade não é sentir-se alegre o tempo todo. A positividade é um estado de confiança e a confiança sim, esta pode ser inabalável.


“Tudo que vale a pena na vida só é obtido ao superar o sentimento negativo associado a ele. Toda tentativa de escapar do negativo, de evitá-lo, suprimi-lo ou silenciá-lo sai pela culatra. Evitar o sofrimento é uma forma de sofrimento. Evitar dificuldades é uma dificuldade. Negar o fracasso é fracassar. Esconder o que é vergonhoso é, em si, causa de vergonha.” (Mark Manson em A sutil arte de ligar o foda-se)


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